Tragédias
Aos 15 anos Josi escreveu um bilhete no verso da folha da prova de português pedindo ajuda.
“Toda noite o homem entra no meu quarto e ninguém me acode. Me ajuda professora.”
A professora não levou a sério e o tempo passou.
Fim do ano, época das provas orais. Na sua vez, emudeceu e chorou. Foi levada para a sala da diretora, que a questionou sobre o motivo de sua recusa. Josi repetiu: “Me ajude senhora, já não consigo estudar, tenho nem cabeça para brincar na rua com os colegas. Toda noite fico em claro com medo da quele homem me fazer mal”.
A diretora procurou a mãe de Josi para perguntar sobre o tal homem. Lourdes disse que não esquentasse a cabeça, que não tinha homem nenhum, tudo ideia da cabeça da filha.
A diretora então parou de esquentar a cabeça.
O tempo passou novamente. Veio o ano seguinte.
Josiane pediu ajuda às irmãs. Apenas a caçula se pronunciou: “vai no padre”.
Dias depois, voltando da escola, Josiane procurou pelo padre, pediu para se confessar. Contou tudo ao pároco. Escutou dele que um tanto de reza e fé iriam ajudar, mas que não preocupasse, deus não entrega a ninguém cruz maior do que se pode carregar.
Desesperou-se.
Restou apenas contar tudo para sua mãe. Levou um tapa na cara e foi posta de castigo.
Pensava no padre, pensava em deus, não conseguia entender o peso da cruz.
Um dia começaram a notar sua barriga, e logo foi chamada na sala da diretora da escola. Perguntada sobre como aquilo havia acontecido, respondeu: “Foi vontade de deus,”. Acharam que era deboche e gritaram com ela, queriam a verdade. “É a verdade, Deus quer que eu guarde na minha barriga meu irmãozinho, pra eu cuidar dele”.
Josiane parou de frequentar a escola. Tempos depois já não era vista nem na rua. Diziam que tinha sido levada para outra cidade onde fez seu parto e entregou o recém-nascido para doação.
No ano seguinte voltou a ser vista na cidade, mas não retornou para a escola. Nunca mais.
Conseguiu emprego, mas todo o resto lhe faltava. Os rapazes nunca se aproximavam. As amigas tinham vergonha de serem vistas em sua companhia.
O tempo continuava a passar, e o povo parecia nunca esquecer do ocorrido. Nunca entendeu o motivo de ninguém a ter acudido.
Um dia a vida ficou pesada demais. Decidiu recomeçar em outro canto. Deixou tudo para trás e seguiu seu rumo com um peso no coração.
Desapareceu da cidade, mas ninguém notou.
Rose era feliz, se dizia sortuda por te levado uma vida tola, sem muitas delícias, mas também de poucas tristezas.
Teve os homens que quis, mesmo que às escondidas. Quando decidiu se casar, escolheu a dedo o marido. Construiu sua casa no seu bairro favorito e a pintou de azul. Tinha uma piscina para os finais de semana, emprego estável, salário justo. Não podia ter filhos, mas adotou o certo: carinhoso, companheiro e bem educado.
Nunca viajou ao exterior, mas em todos os verões alugava uma casa na praia do Espírito Santo.
Aprendeu a dirigir, comprou seu carro, organizava o terço e era considerada pilar da comunidade.
Ainda jovem, começou a enlouquecer. Não teve tempo de compreender o que acontecia com sua mente, foi atropelada por uma esclerose avassaladora. Ao menos durou pouco.
Num domingo, voltou da missa e como sempre fazia foi arrumar o almoço. Seu marido estranhou a demora, e quando chegou na cozinha encontrou a mulher em chamas.
Havia atirado álcool no corpo e riscado um fósforo.
O Marido, assombrado, perguntava por que ela havia feito aquilo, enquanto a puxava da cozinha na direção da piscina. Ela apenas dizia “não dói, não se preocupe”.
Caiu na água, o fogo se apagou. O marido a levou para o carro e partiu em direção ao hospital. No caminho, ela repetia: “não dói, não se preocupe”. Sua pele se desprendia do corpo, assim como sua consciência. Chegou morta na emergência.
No bairro, todos se espantaram com a notícia. Menos pela perda da vizinha, talvez, mais pelo silêncio com o que tudo transcorreu.


